Malhando

No caminho para a biblioteca pública estadual, passo em frente a uma academia cujo slogan é “Pare de pensar e venha malhar”.


Desejo do dia

14out09

Paciência

Ao fígado

Peço paciência ao meu coração todos os dias. Como estou achando que ele é surdo, vou passar a pedir a outros órgaos, menos atribulados, como o fígado e o apêndice.


Desejo do dia

27set09

Gentileza urbana

Irritando Desireê Antônio

Sente-se ao lado da Desireê no ônibus

Retire um pacote de jujubas da bolsa

Abra-o lentamente, fazendo o máximo possível de ruído

Coloque uma jujuba na boca

Masque a bala com a boca aberta e faça bastante ruído

Passe a língua pelos dentes para tirar os resquícios da bala

Repita o procedimento anterior até acabar com as jujubas

Jogue o papel pela janela do ônibus


Desejo do dia

22set09

Para quando você vier

objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja

do eterno Leminski, em “Caprichos e Relaxos”


Desejo do dia

13set09

Franqueza

Sem perder a ternura

Termino de ler, levando mais tempo do que o necessário, o simpático “Como distinguir o bajulador do amigo”, do Plutarco. Como o título indica, o livro se dedica a mostrar como é possível diferenciar a verdadeira amizade daqueles “vis amigos que só encontramos à mesa”.

Desrespeitando completamente a bela pena do filósofo, resumo o ponto central do texto: bajuladores tentarão se passar por amigos do alvo de seu interesse, buscando estabelecer semelhanças com eles. Dirão que gostam das mesmas coisas, que sentem as mesmas emoções e que passam pelos mesmos dilemas.

Mais do que isso: eles tentarão ser agradáveis a todo custo. Estimularão o ego de seu hospedeiro e não se furtarão em se humilhar para fazê-lo. É na descrição desse comportamento que encontrei uma das passagens mais hilárias que já li num texto de Filosofia. Reproduzo-a abaixo:

“O bajulador, que só deseja permanecer num plano secundário, renuncia até a igualdade: ele se confessa inferior em tudo, exceto no pior, onde pretende levar vantagem. Seu humor é cinzento? Ele é melancólico. Você é supersticioso? Ele é fanático. Você está apaixonado? Ele sente todos os furores do amor. Você riu inesperadamente? Ele quase sufocou de rir.

Com as boas qualidades, ocorre totalmente o oposto: ele é leve na corrida, mas você posssui a rapidez de um pássaro; ele monta bastante bem, mas é que é isso perto de um centauro como você? Eu tenho algum talento para poesia, ele dirá, e faço muito bem um verso, mas cabe apenas a Júpiter lançar um raio. Assim, ele parece apaludir seus gostos, já que os imita, e confessa, deixando-o vencer a superioridade de seus talentos.”

Para ser franco

A melhor lição do livro, pra mim, foi a discussão sobre o uso da franqueza. Por mais deselgante que seja admitir, a ideia de ser franco, pra mim, sempre esteve ligado a ser mal-educado, a esse elogio aos que dizem “as verdades na cara, doa a quem doer”.

Quando comecei a trabalhar, vi que para algumas pessoas ser franca e ser grossa são quase sinônimos. Parece que no jornalismo há uma certa tolerância à falta de tato, seja de editores para com os jornalistas e ou dos repórteres com os estrevistados, uma noção estranha de que quanto mais mal-educado, maior a garantia de que o trabalho saia bem-feito.

Durante algum tempo, achei que isso era normal e aceitei o jogo. Depois, vi que não valia a pena, que seria melhor procurar uma outra via para cobrar ou para tratar de assuntos indelicados.

Encontrei nesta passagem a seguir a descrição do modo como gostaria de ser franca ou que fossem francos comigo.

“A franqueza exige muito mais arte por ser, nas mãos da amizade, o remédio mais eficaz, quando empregado apropriadamente e temperado sabiamente pela doçura; a cura que ela proporciona, como já dissemos, é frequentemente dolorosa.

Imitemos, portanto, os cirúrgiões que, após amputar um membro, não abandonam os doentes com seus sofrimentos, mas adoçam a ferida com fomentações.

Do mesmo modo, aqueles que repreendem com habilidade, quando introduzem no coração o lado mordaz da censura, sabem temperá-la com propostas doces e consoladoras. […]

Portanto, evitemos, com o maior cuidado, quando repreendemos nossos amigos, abandoná-los imediatamente, e terminar nossa conversa com palavras humilhantes que possam feri-los.”


Casar pra quê?

Encontro no meu Google Reader, dentre os itens compartilhados por meu colega e jornalista Kleyson , a seguinte pesquisa sobre os motivos que levam as pessoas a se casarem.

Confesso que os resultados me surpreenderam: achei que mais gente se casava esperando receber utensílios domésticos grátis.


Desejo do dia

07set09

Brevê para pais
Em busca da habilitação

Amanhã, a minha irmã começa a fazer aulas de direção, o ponto alto de seus esforços para tirar carteira de motorista.

Custeado pelo meu irmão, que queria que mais alguém da casa dirigisse, além dele, o programa “Daphne rumo ao volante” teve início há quase dois meses, quando ela prestou o exame psicotécnico e logo depois se matriculou nas aulas de legislação.

Durante esse tempo, eu acompanhei de perto e até me envolvi um pouco com seus estudos sobre leis, placas e infrações de trânsito. Num dos dias em que ela pediu que eu a arguisse, eu notei o quanto detalhe e informação burocrática era preciso guardar para dirigir.

Alguns dirão que é necessário saber tudo isso, afinal, a direção coloca a vida das pessoas em risco. No entanto, há muitas atividades que podem prejudicar_ e muito_ a vida de alguém que não exigem o mesmo preparo. Seria deselegante o bastante para incluir o jornalismo, mas essa é uma discussão que não pretendo ter aqui nem agora.

Para sustentar meu argumento, busquei exemplos de cargos ou funções fundamentais cujo mau exercício poderia arriscar a vida de alguém, e o melhor exemplo que encontrei foi a sagrada instituição da paternidade.

De modo geral, ter um filho não exige nada além de condições biológicas que permitam a sua geração. Não é preciso comprovação de renda para garantir sua subsistência tampouco que se ateste que os pais fazem pleno de suas faculdades mentais.

Prova para pais

Particularmente, sou contra o funcionamento desse sistema reprodutório. Acho que deveria ser instituído algum tipo de prova para aqueles que pretendem ser pais, uma espécie de exame para obter a “carteira nacional de paternidade”.

Após testes psicológicos, atestado de bons antecedentes e um curso sobre cuidados básicos com seres humanos dos zero aos 18 anos, o casal, seja qual composição tenha, poderia receber a habilitação.

Só depois do recebimento da licença, os futuros pais poderiam se dirigir ao Denap (Departamento Nacional de Paternidade) e entregar seu pedido a uma das cegonhas que atuam no órgão. Antes, nada de bebês.

O prazo de nove meses seria mantido porque o departamento funcionaria com o atual ritmo da burocracia brasileira. Bebês prematuros, obviamente, mais raros, seriam fruto dos esforços de algum servidor jovem e recém-nomeado.

Conforme ele fosse se adequando à cultura corporativa, passaria a liberar os pequenos com os nove meses devidos.

Aos que acham a medida extrema, pensem que cenas como a retratada acima poderiam ser menos frequentes.