Desejo do dia

13jul09

Feliz aniversário

Parabéns pra mim

Hoje é meu aniversário: completo 24 anos nesta segunda-feira. Quem convive comigo sabe que não tenho o costume de comemorar a data. Acho estranha a ideia de celebrar num dia algo que acontece o tempo todo, que é envelhecer.

Também acho meio esquisito receber “parabéns” como se tivesse realizado um grande feito apenas por aniversariar. Num dia em que conversávamos sobre isso, um amigo meu, o Marcelo, disse que as congratulações eram, no mínimo, exageradas. “Parabéns por quê? Por que consegui me manter vivo?! Por que me desviei dos carros e não tomei veneno?!”, argumentava.

Concordei com ele quando falou isso, há uns dois ou três anos, mas hoje eu discordo. Viver é muito mais duro do que eu pensava à época da minha saudosa e leve infância. Há momentos em que resistir à tentação de adicionar cicuta ao café da manhã é realmente um feito e merece todos os “parabéns” do mundo, quiçá, uma placa de homenagem.

Abaixo, deixo uma das coisas mais bonitas que já li sobre aniversários, do amado Nando, que encontrei numa coletânea de poemas que comprei no mês passado. Este verso “comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes” é o meu preferido.
Aniversário
Álvaro de Campos
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado—,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

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2 Responses to “Desejo do dia”

  1. 1 Anice Lima

    Oi Desiree, Seu texto está muito bom!!! A cada dia você escreve melhor! Ah os meus 24 anos, que saudade… sinto muita falta, e olha que só passaram 4 anos!Li um conto do Rubem Alves no livro "Retorno Eterno" que dizia que o aniversário não deve ser comemorado como mais um ano e sim como menos um ano, menos um ano de vida!!! Muito bom este texto, vc me fez lembrar dele.beijinhos

  2. 2 Desiree

    ô, Anice, muito obrigada pelas palavras. Fico feliz que goste do que escrevo. O melhor mesmo é sempre o Pessoa. Bom demais ele. Eu acho que algum dia sentirei saudades dos meus 24 anos, mas hoje com essa inquietação de não saber o que o futuro reserva, está complicado ver isso como um momento bom. Talvez, as coisas piorem tanto daqui a algum tempo que eu passe a me lembrar destes momentos como felizes. Ou simplesmente, elas nunca cheguem a ser como gostaria, e cada momento anterior sempre pareça bom em comparação ao presente. Abraços e obrigada pelos elogios. Como falei, seus eles são sempre bem-vindos. Abraços, Esse livro do Rubem Alves tem uma inspiração nietzschineana às avessas?


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