Impressões do mundo

18jul09

Revelação

“Oi, Nicola”, eu disse e só então ele se voltou e me viu. Sentei-me à mesa. “Estava aqui olhando”, disse ele, falando devagar; “é interesante, há solidão até nas coisas; numa chuva, por exemplo…”

Fiquei olhando também e pensando naquilo: a solidão da chuva, a solidão das coisas…”

Leu alguma coisa hoje?”, ele me peguntou. Eu disse que não. Vi o livro que estava na mesa: era O Idiota. Nicolau me disse que estava relendo-o; ia reler todos os livros de Dostoievski. Começou então a me falar do escritor que entre todos ele mais amava, e que amava mesmo “mais do que meu pai e minha mãe”.

Eu o escutava, o ruído da chuva ao fundo, por trás de sua voz, uma chuva que parecia estar caindo não ali na nossa cidade, pequena e sem importância, mas nas ruas da antiga São Petesburgo.

“Dostoievski”, disse Nicolau, “é o maior de todos os escritores, porque é o que mais teve mais compaixão”. “Como você define compaixão?”, eu perguntei. …

Aquele dia não sei se perguntei apenas por hábito, ou se queria realmente que Nicolau falasse sobre a compaixão, uma coisa a qual eu nunca me pusera a pensar e para a qual ele agora sem querer me chamava atenção. Mas ele não definiu- ele, o único ali dentro que nunca deixava de definir uma coisa quando perguntado, dessa vez não respondeu.

Não sei; não sei definir compaixão, mas eu sei o que ela é: quando a gente chega a sentir compaixão até por uma barata, até por uma folha de árvore, até mesmo por um botão de camisa..”

Eu fiquei olhando-o, impressionando; aquilo nunca me passara pela cabeça: compaixão por tais coisas. Foi como se dentro de mim algo que eu não conhecia despertasse àquela hora, e eu senti que se podia ver tudo de um modo diferente do que vira ate então e que a maioria das pessoas via.

E foi isso o que aconteceu àquela noite, quando voltei para casa. A chuva tinha parado, a rua estava molhada, as pedras brilhando sob a luz amarelada e mortiça dos postes; eu ia andando devagar, olhando para cada coisa, surpreso de não as ter visto antes, e tudo me parecia ao mesmo tempo tão belo e tão triste, eu sentia em mim como que um desejo de tudo abraçar, algo tão grande que meus olhos molharam. Seria a compaixão? pensei, olhando para o céu estrelado, que se estendia calmo sobre a cidade adormecida.

de O choro no travesseiro, do meu adorado Luiz Vilela.
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