Desejo do dia

23ago09

 

Da pintura de mim

Dia desses, para uma seleção de trabalho, tive que escrever um texto respondendo à pergunta “quem sou”: quais eram meus gostos, preferências e expectativas. Confesso que a tarefa foi mais complicada do que imaginei.

Atraída por temas mais interessantes do que minha própria vida, evitei durante todos esses anos empreender qualquer tipo de esforço autobiográfico: do singelo “Quem sou”, pedido pelo Orkut, a redações escolares que tinham como tema “eu e minha família”, “eu e minha escola” e variações correlatas.

Falar sobre si mesmo é sempre difícil, é quase um tabu. O medo de exagerar os próprios atributos luta com o temor de ser acusado de falsa modéstia, e o resultado corre o risco de não passar de uma sucessão de clichês.

Foi esse um dos motivos pelos quais não escrevi nenhum texto de autoapresentação neste blog e me limitei a me definir como “quase jornalista”, expressão que caducou há algum tempo porque, apesar de formada, não sei já sou ou ainda quero ser uma “profissional da mídia”.

Dilemas profissionais à parte, fato é que ter que escrever sobre mim me lembrou os lindos “Ensaios”, do Montaigne*, cujo retrato está aí acima, especialmente a apresentação que ele fez de sua obra aos leitores.

O texto, que reproduzo abaixo, é, salvas as diferenças de tecnologia e época, exatamente o que gostaria de escrever antes de qualquer tentativa de responder à capciosa pergunta “quem sou”. Chego a pensar que ele serviria perfeitamente à descrição desta página se se substituísse “livro” por “blog”.

Ao leitor

Está aqui um livro de boa-fé, leitor. Desde o início ele te adverte que não me propus nenhum fim que não doméstico e privado. Nele não levei em consideração teu serviço, nem minha glória. Minhas forças não são capazes de um tão intento.

Voltei-o ao benefício particular de meus parentes e amigos; para que, ao me perderem ( do que correm o risco dentro em breve), possam reencontrar nele alguns vestígios de minas preferências e humores, e que por esse meio, mantenham mais íntegro e mais vivo o conhecimento que tiveram de mim. Se fosse para buscar o favor do mundo, eu me parametaria melhor e me apresentaria em uma portura estudada.

Quero que me vejam aqui em minha maneira simples, natural e habitual, sem apuro e artifício, pois é a mim que pinto. Nele meus defeitos serão lidos ao vivo e minha maneira natural, tanto quanto o respeito público me permitiu.

Pois, se eu tivesse estado entre aquele povos que se diz viverem ainda sob a doce liberdade das primeiras leis da natureza, asseguro-te que de muito bom grado eu teria me pintado inteiro e nu. Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria de meu livro: não é sensato que empregues teu lazer em um assunto tão frívolo e tão vão.

A Deus pois, de Montaigne, neste primeiro de março de mil quinhentos e oitenta.

Texto absolutamente lindo de um dos livros mais bonitos e que alguém já escreveu.

* os capítulos são tão fofos _ são três volumes que somam quase 1.500 páginas e representaram os R$ 200,00 mais bem gastos da minha vida_ que eu estou caindo de amores pelo moço.

Se não houvesse cinco séculos, um oceano e um óbito nos separando, eu certamente integraria a fila de moças que aspirariam ao posto de sra. Michel de Montaigne.

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