Desejo do dia

13set09

Franqueza

Sem perder a ternura

Termino de ler, levando mais tempo do que o necessário, o simpático “Como distinguir o bajulador do amigo”, do Plutarco. Como o título indica, o livro se dedica a mostrar como é possível diferenciar a verdadeira amizade daqueles “vis amigos que só encontramos à mesa”.

Desrespeitando completamente a bela pena do filósofo, resumo o ponto central do texto: bajuladores tentarão se passar por amigos do alvo de seu interesse, buscando estabelecer semelhanças com eles. Dirão que gostam das mesmas coisas, que sentem as mesmas emoções e que passam pelos mesmos dilemas.

Mais do que isso: eles tentarão ser agradáveis a todo custo. Estimularão o ego de seu hospedeiro e não se furtarão em se humilhar para fazê-lo. É na descrição desse comportamento que encontrei uma das passagens mais hilárias que já li num texto de Filosofia. Reproduzo-a abaixo:

“O bajulador, que só deseja permanecer num plano secundário, renuncia até a igualdade: ele se confessa inferior em tudo, exceto no pior, onde pretende levar vantagem. Seu humor é cinzento? Ele é melancólico. Você é supersticioso? Ele é fanático. Você está apaixonado? Ele sente todos os furores do amor. Você riu inesperadamente? Ele quase sufocou de rir.

Com as boas qualidades, ocorre totalmente o oposto: ele é leve na corrida, mas você posssui a rapidez de um pássaro; ele monta bastante bem, mas é que é isso perto de um centauro como você? Eu tenho algum talento para poesia, ele dirá, e faço muito bem um verso, mas cabe apenas a Júpiter lançar um raio. Assim, ele parece apaludir seus gostos, já que os imita, e confessa, deixando-o vencer a superioridade de seus talentos.”

Para ser franco

A melhor lição do livro, pra mim, foi a discussão sobre o uso da franqueza. Por mais deselgante que seja admitir, a ideia de ser franco, pra mim, sempre esteve ligado a ser mal-educado, a esse elogio aos que dizem “as verdades na cara, doa a quem doer”.

Quando comecei a trabalhar, vi que para algumas pessoas ser franca e ser grossa são quase sinônimos. Parece que no jornalismo há uma certa tolerância à falta de tato, seja de editores para com os jornalistas e ou dos repórteres com os estrevistados, uma noção estranha de que quanto mais mal-educado, maior a garantia de que o trabalho saia bem-feito.

Durante algum tempo, achei que isso era normal e aceitei o jogo. Depois, vi que não valia a pena, que seria melhor procurar uma outra via para cobrar ou para tratar de assuntos indelicados.

Encontrei nesta passagem a seguir a descrição do modo como gostaria de ser franca ou que fossem francos comigo.

“A franqueza exige muito mais arte por ser, nas mãos da amizade, o remédio mais eficaz, quando empregado apropriadamente e temperado sabiamente pela doçura; a cura que ela proporciona, como já dissemos, é frequentemente dolorosa.

Imitemos, portanto, os cirúrgiões que, após amputar um membro, não abandonam os doentes com seus sofrimentos, mas adoçam a ferida com fomentações.

Do mesmo modo, aqueles que repreendem com habilidade, quando introduzem no coração o lado mordaz da censura, sabem temperá-la com propostas doces e consoladoras. […]

Portanto, evitemos, com o maior cuidado, quando repreendemos nossos amigos, abandoná-los imediatamente, e terminar nossa conversa com palavras humilhantes que possam feri-los.”

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2 Responses to “Desejo do dia”

  1. 1 Where I'm Anymore

    Eu acho que uma coluna realmente interessante e irreverente como a sua em um jornal de boa circulação ia dar o que falar, hein Desireê!

  2. 2 Desiree

    Guilherme, eu agradeço as bonitas palavras, mas acho que eu seria censurada, viu? Mas, quem sabe, eu não fundo um jornal um dia? Abração


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